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Líder quilombola no TO morreu por coronavírus uma semana após perder o irmão para a doença

A líder quilombola Maria de Fátima Batista Barros, de 48 anos, morreu por coronavírus uma semana após perder o irmão Raimundo Batista Barros para a doença. O homem tinha 66 anos e estava internado no Hospital Regional de Araguaína. Neste período a tia deles, Angélica Arcanjo Negreiro de 77 anos, também morreu com a Covid-19. Parentes das vítimas sofrem e lamentam as mortes em pouco tempo.

Os três moravam em Araguatins, na região do bico do papagaio, e os irmãos eram quilombolas da Ilha de São Vicente, às margens do rio Araguaia. A família conta que nenhum soube da morte do outro. Isso porque todos precisaram ser intubados por conta do tratamento da doença.

O primeiro a não resistir foi Raimundo Batista Barros. Por causa de dores de cabeça que não cessavam ele precisou procurar o Hospital Municipal de Araguatins no dia 22 de março. No local os médicos identificaram que a respiração do paciente já estava comprometida e ele começou a fazer uso de oxigênio.

Raimundo precisou ser transferido para um leito clínico no Hospital de Doenças Tropicais, em Araguaína, onde foi intubado, e por causa da gravidade foi transferido para um leito de UTI no Hospital Regional da cidade. A morte foi registrada no dia 30 de março.

Leila Freitas Barros, uma das cinco filhas de Raimundo, lamentou ter perdido o pai.

“É lamentável e muito difícil aceitar que ele tenha contraído o vírus, pois ele sempre foi um defensor do isolamento social e tomava todos os cuidados. Meu pai era uma pessoa admirável, homem honesto, muito carinhoso, dedicado à família e aos amigos. Tinha sorriso largo e amava viver. Ainda não sabemos como será tocar a vida sem ele, uma referência de pessoa marcante para a família”, disse Leila.

Raimundo Batista Barros ao lado da filha Leila — Foto: Arquivo pessoal

Raimundo Batista Barros ao lado da filha Leila — Foto: Arquivo pessoal

Raimundo também deixou a esposa e três netas.

Morte de liderança

A irmã mais nova de Raimundo, Maria de Fátima, morreu uma semana depois. A mulher, que era educadora e conhecida nacionamente pela atuação em defesa dos povos tradicionais, ficou 20 dias lutando contra a Covid-19.

Ela tinha sido diagnosticada com o vírus no dia 15 de março após sentir febre e dores no corpo e procurar ajuda no Hospital Municipal de Araguatins.

No dia 19 do mesmo mês ela foi transferida para uma Unidade de Terapia Intensiva no Hospital Regional de Augustinópolis, mas teve uma piora no quadro e precisou ser intubada no último dia 24. Nesta terça-feira (6), por volta das 10h, ela não resistiu.

Maria de Fátima Batista Barros era uma das principais lideranças quilombolas do Tocantins — Foto: Arquivo pessoal

Maria de Fátima Batista Barros era uma das principais lideranças quilombolas do Tocantins — Foto: Arquivo pessoal

Formada em pegadogia, Maria de Fátima era uma das principais vozes do movimento quilombola e negro do Tocantins e dedicou a vida a defender povos tradicionais. Ela foi a primeira da própria família a frequentar uma universidade e era muito conhecida pela atuação em defesa da Comunidade Quilombola da Ilha de São Vicente.

Durante a pandemia, Fátima criou uma linha de camisetas bordadas com símbolos da cultura afrodescendente. A ideia virou fonte de renda. No último dia 18 de março, antes do estado de saúde dela se agravar, Fátima falou ao G1 sobre a convivência com o vírus e sobre esperança.

“A gente clama por uma saúde pública que seja mais digna. Que os números de vagas sejam ampliados e que a gente possa enfrentar isso com dignidade. Que a saúde seja um direito de todos”

A educadora dedicou a vida a defender a Comunidade Quilombola da Ilha de São Vicente — Foto: Arquivo pessoal

A educadora dedicou a vida a defender a Comunidade Quilombola da Ilha de São Vicente — Foto: Arquivo pessoal

Cerca de quatro horas após a morte de Fátima, a tia dela também morreu vítima da Covid-19. Angélica Arcanja, de 77 anos, estava internada no mesmo hospital que a sobrinha recebia tratamento. A idosa morava na zona rural da cidade.

O cortejo das duas ocorreu durante a tarde desta terça-feira (7) e os corpos foram enterrados no Cemitério Municipal de Araguatins na mesma cerimônia.

Angélica Arcanja Negreiro morreu por Covid-19 aos 77 anos — Foto: Divulgação

Angélica Arcanja Negreiro morreu por Covid-19 aos 77 anos — Foto: Divulgação

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